Resta-nos Brincar – A voz de Carlos Neto é muito mais do que um livro sobre infância, jogo ou educação. Trata-se de um testemunho profundamente humano e intelectual de uma das figuras mais marcantes do pensamento pedagógico português contemporâneo. Construído a partir de longas conversas entre Carlos Neto, Ana Gil, Teresa Brito e Frederico Lopes, o livro assume a forma de uma reflexão viva sobre o brincar enquanto condição essencial da existência humana.
Ao longo das páginas, Carlos Neto revisita memórias de infância, episódios biográficos, experiências académicas e posições críticas sobre a escola, a família, a cidade e a sociedade contemporânea. Mas este não é um discurso nostálgico. Pelo contrário: é um alerta lúcido sobre a progressiva perda de liberdade, autonomia e tempo das crianças, num mundo dominado pelo medo, pela aceleração e pela hiperestruturação da vida quotidiana.
A grande força da obra reside precisamente na conjugação entre pensamento científico, sensibilidade poética e densidade existencial. O brincar surge aqui não apenas como atividade infantil, mas como linguagem fundadora da criatividade, da democracia, da saúde mental e da própria humanidade. Em vários momentos, a consciência da fragilidade física e da proximidade da morte confere ao texto uma dimensão particularmente comovente e rara.
Mais do que um livro sobre educação, Resta-nos Brincar afirma-se como um legado ético, pedagógico e civilizacional. Uma obra necessária para educadores, investigadores, famílias e todos os que acreditam que a liberdade de brincar continua a ser uma das formas mais profundas de resistência humana.